A alma encantadora das ruas / The enchanting soul of the streets
João do Rio

Vertido e anotado por Mark Carlyon

Muito ouvi dizer que não existe outro escritor tão intimamente identificado com a cidade, cujo nome adotou, quanto João do Rio. A coletânea de crônicas que constitui A Alma Encantadora das Ruas é um documento extraordinário, não somente pela sua descrição da vida no Rio de Janeiro na virada do século passado, mas também pelo seu forte conteúdo poético e humano.

Estas crônicas estão entre os primeiros exemplos do jornalismo investigativo brasileiro e retratam uma realidade tão dramática quanto desconhecida pelas classes mais abastadas; a tal ponto que muitos leitores da época as consideravam fantasias do próprio autor.

João do Rio narra esses episódios com grande maestria; não é por coincidência que na sua obra mais audaciosa, As Religiões do Rio, ele cita Emanuel Swedenborg: ele também acreditava piamente no poder das palavras: o veículo de padres e de poetas, exacerbando as superstições, amenizando o sofrimento.

“Os homens vivem no mistério das palavras conciliadoras”, observa o autor na crônica Orações; para mais adiante declarar: “Oh! o poder da palavra pronunciada misteriosamente! Os homens de todos os países, de todas as terras têm-lhe um terror sagrado.” Em A Musa das Ruas, que encerra a antologia, após afirmar que “O Brasil é a terra da poesia” e que “a sua grande cidade é o armazém, o ferro-velho, a aduana, o belchior, o grande empório das formas poéticas”, ele completa: “Nesta Cosmópolis, que é o Rio, a poesia brota nas classes mais heterogêneas… os jornais proclamam incessantemente a preocupação poética da cidade, o anônimo mas formidável anseio de um milhão de almas pelo ritmo, que é a pulsação arterial da palavra.”

E é esse pulso que permeia A Alma Encantadora das Ruas da primeira até a última palavra.