Traduzindo João do Rio


Numa primeira leitura fica logo evidente ao olho do tradutor que o estilo de João do Rio tem dois aspectos distintos, embora sempre entrelaçados: a sonoridade e o significado. Apenas no primeiro parágrafo de A Rua, o ensaio que abre a coletânea, constam quatro casos em que uma palavra é seguida por outra de significado virtualmente idêntico:

“as idades e as épocas”
“parecidos e iguais”
“une e agremia”
“persiste e fica”.

Este grande expoente do estilo da Belle Époque escolhe suas palavras tanto pelo som e pelo ritmo como pelo sentido. Transmitir a sonoridade torna-se parte inerente do processo de tradução.

O maior desafio, porém, que A Alma Encantadora das Ruas apresenta ao tradutor, é o fato das crônicas estarem recheadas de citações de poetas e, mais problemático ainda, de versos populares. Nesses casos a minha consideração primária tem sido manter, além do sentido, o espírito do original, refletido na metrificação e no padrão das rimas.

Estas crônicas são a única obra de não-ficção até agora incluída na coleção. Os leitores de João do Rio eram seus contemporâneos; não só conheciam a cidade – seus prédios, pontos de referência, ruas e bairros – tão bem quanto ele, como também estavam familiarizados com a história do Brasil, os acontecimentos recentes e os escritores e artistas que ele menciona. Assim o livro requer atenção redobrada na anotação das referências, não somente na versão em inglês, mas também no original.

Na melhor das hipóteses, uma tradução é somente capaz de transmitir um eco das ruas do Rio de Janeiro cem anos atrás, descritas no português rebuscado e inspirado do fim de siècle. Que seja um eco que ainda ressoe com parte do som original!