Casa velha / The old house
Machado de Assis

Vertido de anotado por Mark Carlyon
Machado de Assis

A posição de Machado de Assis como o maior romancista do Brasil (ou mesmo de toda a América Latina) é praticamente unânime entre os críticos literários, tanto no Brasil quanto no exterior. Ao digitar seu nome no sistema de busca em uma das maiores livrarias virtuais do Brasil, deparei-me com mais de 200 títulos disponíveis; entre estes há romances, contos, peças de teatro, poemas e ensaios, bem como biografias e uma extensa gama de crítica literária. Uma amiga, proprietária de uma editora, ao saber que eu estava traduzindo Machado de Assis, teve a gentileza de me enviar três livros: O Caráter Feminino nos Romances de Machado de Assis; Machado de Assis e a Modernidade Brasileira, e A Geografia de Machado de Assis.

Embora este imenso interesse acadêmico ateste, sem dúvida, a grandeza de Machado de Assis e o fascínio pelo autor, haverá inevitavelmente o efeito colateral que poderíamos chamar de síndrome de Shakespeare: de transmitir a noção de que seja ele um escritor inacessível, reservado a uma elite de esclarecidos. Há poucas maneiras melhores de se conhecer uma obra do que o ato de traduzi-la, e a minha experiência com Casa Velha demonstrou que tal noção sobre Machado está longe de ser verdadeira.

Machado é um escritor parcimonioso com as palavras; é contido, austero, e extremamente sutil.

Neste sentido, vejo um paralelo com uma cena do filme “Encontro com Vênus” (“Meeting Venus”, 1991) no qual Glenn Close faz o papel de uma diva. A certa altura o regente húngaro, cuja produção de Tannhäuser está ameaçada por uma greve, comenta que, se necessário eles poderiam encenar a ópera na frente da cortina de segurança com os cantores vestidos em capas de chuva. Ou seja: a música de Wagner falaria por si só. De fato, o texto de Casa Velha fala por si.

Esta novela sobre o drama que se desenrola dentro de uma família da elite do império em 1839, narrado na primeira pessoa por um padre que se envolve na trama, tem todas as marcas do grande gênio, culminando no extraordinário diálogo em que a matriarca, ferozmente oposta ao casamento do seu filho com uma agregada da casa, desmascara o padre que tem esposado a causa do jovem casal.

É um livro que não se consegue pôr de lado.


Casa Velha exige do leitor conhecimento do contexto histórico que constitui o pano de fundo da trama. Neste sentido o ensaio do Professor John Gledson incluído no livro, é de inestimável valor. A leitura do ensaio juntamente com o texto de Machado acrescenta, a meu ver, uma nova dimensão ao livro; após uma vida inteira estudando e traduzindo a obra do autor, a sutileza das percepções do Professor Gledson está à altura do próprio Machado.

Veja aqui a entrevista sobre Casa Velha de Miguel Conde, editor do caderno Prosa e Verso do Globo, com John Gledson.