Memórias de um sargento de milícias / Memoirs of a militia sergeant
Manuel Antônio de Almeida

Vertido e anotado por Mark Carlyon
Manuel Antonio de Almeida
O embarque da família real de Portugal, sua partida apressada e as agruras da travessia, figuram entre os acontecimentos mais inusitados do início do século XIX. A chegada da corte ao Rio de Janeiro ocasionou o desembarque, durante um período de doze meses, de uma comitiva de mais de 15.000 pessoas, entre autoridades, cortesãos e agregados, mudando para sempre a vida da cidade.

Igualmente inusitada, porém, é a existência deste extraordinário romance, que retrata a vida no Rio de Janeiro durante os anos em que a cidade serviu como capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1808-1821).

Nas Memórias de um Sargento de Milícias, o jovem autor Manuel Antonio de Almeida, (que escreveu a obra entre 1852 e 1853, aos vinte e um anos de idade) não apenas retrata os costumes e o cotidiano da cidade naquela época; retrata também o indomável espírito carioca – a malandragem, o bisbilhotice, a alegria de viver – que tanto caracterizavam a cidade duzentos anos atrás quanto a caracterizam hoje.

O livro existe em duas versões principais; a primeira redigida pelo autor em forma de folhetim, e a segunda – revisada, abreviada e editada – na forma de um livro (que serviu de base para a tradução). O autor, com postura de cronista onividente, faz constantes apartes aos seus leitores, descrevendo procissões religiosas, festas e outros passatempos prediletos dos cariocas da época, constituindo um retrato inigualável da cidade e dos seus habitantes ‘no tempo do rei’.

Um dos aspectos curiosos do livro é o fato do autor não ver a necessidade de dar nomes aos seus personagens; o próprio sargento somente recebe seu nome no Capítulo 28, decorrida mais da metade da narrativa.

Almeida ignora solenemente as formas artificiais e estilizadas de seus contemporâneos românticos (“Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de movediça e leve… isto quer dizer, em linguagem chã e despida dos trejeitos da retórica, que ela era uma formidável namoradeira…” escreve no Capítulo 33); e escreve um livro que até hoje é visto como o precursor do realismo na literatura brasileira.

Alem de se empenhar em retratar os costumes e o cotidiano da cidade de forma realista, certos personagens do livro são pessoas que de fato existiram, notavelmente o famigerado chefe de polícia, o Major Vidigal (1745-1843).

Chegando ao final do livro (Capítulo 43), em um de seus muitos apartes, o autor comenta: “Era má sina do major ter sempre de andar desmanchando prazeres alheios; e infelicidade para nós que escrevemos estas linhas estar caindo na monotonia de repetir quase sempre as mesmas cenas com ligeiras variantes: a fidelidade porém com que acompanhamos a época, da qual pretendemos esboçar uma parte dos costumes, a isso nos obriga.” Nas suas próprias palavras, com seu apurado senso de autocrítica, o próprio autor aponta os aspectos mais fortes e mais fracos deste livro icônico.