Triste fim de Policarpo Quaresma / The sad end of Policarpo Quaresma
Lima Barreto

Vertido e anotado por Mark Carlyon
Lima Barreto
A última década do século XIX foi uma época de grande turbulência no Brasil. A república recém-fundada por uma aliança entre militares e ideólogos positivistas, sem nenhum apoio popular significativo, teve um inicio pouco auspicioso. Seu primeiro presidente não chegou a completar dois anos no cargo. O exercito porém, não pretendia perder as suas conquistas. Apesar da disposição contrária da nova constituição que exigia novas eleições, o Vice Presidente Marechal Floriano assumiu o poder, tendo que enfrentar rebeliões em duas frentes distintas. A primeira, a Revolta da Armada na capital, foi liderada por três oficiais da marinha que tomaram o controle da Baia de Guanabara, de onde procederam a bombardear a cidade. A segunda, no sul, era uma nova manifestação de um problema mais antigo: a intenção dos estados do sul de romper com a união.

É Floriano, o usurpador do poder, o ditador militar, o centro de um culto de autoritarismo, com a sua personalidade medíocre, que elimina sem piedade todos os seus desafetos, que em muitos sentidos se torna o personagem central nesta obra de Lima Barreto, em torno do qual giram os demais personagens. E é através destes personagens que o autor nos fornece um retrato vivíssimo dos habitantes do Rio de Janeiro na década de 90: Albernaz e Bustamante, promovidos progressivamente até se aposentarem como general e almirante, sem nunca terem ido à guerra; Genelício, o burocrata vaidoso e interesseiro; Doutor Campos, o político do interior que fará tudo o que for necessário para manter seu partido no poder; Coleoni, o imigrante italiano que enriquece no Brasil, porem não é aceito pela sociedade carioca – e acima e tudo Policarpo, introvertido porém muito determinado, o qual fez do amor à pátria a missão central da sua existência; um amor pelo qual há de morrer na mais profunda desilusão.

Estas vidas se passam no contexto de uma cidade que, ao perder seu monarca, perdeu em grande parte a sua identidade; uma cidade traumatizada pela luta pelo poder, vivendo na sombra de um trauma ainda maior: a Guerra do Paraguai; uma guerra que tirou a vida de sessenta mil soldados brasileiros, deixando outros milhares gravemente feridos, devastando a autoestima da nação, destruindo o espírito e a saúde do imperador. No seu libelo contra a guerra, o nacionalismo, as ditaduras militares, o sistema de patrocínio político, o abuso dos direitos humanos, este livro de Lima Barreto é tão relevante hoje quanto era quando o escreveu há cem anos.

Desde então Lima Barreto tem virado um ícone nacional. A história de sua vida, com a loucura do seu pai, sua rejeição cruel pela sociedade literária carioca, sua pobreza e seu alcoolismo, é em si mesmo mais extraordinária do que qualquer obra de ficção.