Entrevista com Marcus Nogueira da revista Isto É

Marcus Nogueira: Em “Casa Velha” como você conseguiu transpor a tão característica ironia Machadiana para o inglês?

Em Casa Velha a famosa ironia do autor está virtualmente ausente – pelo menos aparentemente, na superfície; embora, como atesta o magnífico ensaio de Prof. John Gledson, incluído no livro, uma leitura mais sutil revela um subtexto que comenta sobre a responsabilidade dos atos do Imperador (D. Pedro I) para a instabilidade do período da regência (1831-1840) e os perigos que representou para a hegemonia política e territorial do país.  O livro, também de forma indireta, é um comentário sobre o poder da igreja e uma crítica à sociedade patriarcal em geral.  É narrado na primeira pessoa por um velho padre, relembrando eventos que aconteceram em 1839.

Em termos de tradução, como tradutor estou a serviço do autor (como o regente está a serviço do compositor).  Meu trabalho consiste em transmitir o conteúdo da obra da forma mais fiel possível, a um publico que de outra forma não teria acesso a ela.  Nesse processo, além dos aspectos meramente mecânicos, também devo transpor a ironia, a sutileza psicológica, os múltiplos níveis de sentido para o novo universo linguístico – nesse caso o anglo-saxônico.    

MN: Qual foi sua maior dificuldade em traduzir Machado de Assis?

A língua portuguesa mudou bastante nestes cento e tantos anos; muitos termos mudaram de sentido ou caíram em desuso.  Para citar um exemplo, no segundo capítulo de Casa Velha o padre narrador busca se informar sobre o caráter do filho da casa através de um padre que reza missa na capela da família: “Até aqui suponho que é um modelo de sossego e seriedade,” diz-lhe o padre. “Verdade seja que só vou lá aos domingos.” Ao qual o narrador responde rindo: “Mas pelos domingos tiram-se os dias santos.” A expressão era muito usada na época. Significava que se uma pessoa assistisse à missa todos os domingos, a probabilidade era que passasse os demais dias se comportando como bom cristão. O tradutor tem que pesquisar; precisão é fundamental.

Porem em geral, em termos de tradução, Machado de Assis apresentou menos dificuldades que outros escritores da época que traduzi (João do Rio e Lima Barreto). Machado é o grande mestre; e quanto melhor redigido um texto, mais fácil o trabalho de traduzi-lo.  Me vem à mente uma cena no filme “Encontro com Vênus” (Meeting Venus, 1991) em que Glenn Close faz o papel de uma diva; a certa altura o regente húngaro, cuja produção de Tannhäuser está ameaçada por uma greve dos cenógrafos, comenta que, se necessário eles poderiam encenar a ópera na frente da cortina de segurança com os cantores vestidos em capas de chuva. Ou seja, a música de Wagner fala por si. E foi essa a minha experiência ao traduzir Casa Velha: o texto de Machado fala por si.

MN: E qual foi sua maior dificuldade em traduzir Manuel Antônio de Almeida?

Um livro tem corpo (o conteúdo) e alma (o espírito da obra).  No caso das Memórias o espírito é carioquíssimo, irreverente, transbordando de alegria e malandragem.  O português porem é arcaico; tive que ficar constantemente atento para não perder esse espírito, acima de tudo nos diálogos, que precisavam reaparecer no seu novo contexto linguístico/cultural tão leves e engraçados quanto no original.

MN: A quais pontos o tradutor precisa ficar atento ao transpor uma obra para outra linguagem?

A precisão é fundamental.  A meta do tradutor é “Go for meaning,” sempre.  Porem há questões mais complexas; como fazer que a obra renasça de verdade? Não se trata somente da transferência de elementos, como se fosse transportar uma casa, tijolo por tijolo, e reconstruí-la num terreno ao lado.   Mudando de metáfora, o tradutor terá que produzir um bolo novo; ler a receita, misturar os ingredientes e colocar no forno.  O que sairá do forno será uma nova entidade linguísitica/cultural, seguindo a receita original.

Não é somente a poesia que tem metro, ritmo e sonoridade; a prosa também tem, e a prosa dos grandes escritores tem suas características próprias.  Cito como exemplo dois autores que traduzi recentemente, João do Rio e Machado de Assis.  Enquanto o primeiro é expansivo, às vezes beirando um estado de êxtase, o segundo é sucinto, seco, sutil; nunca perde o controle.  O ritmo e a sonoridade dos dois são inteiramente diferentes.  Uma boa tradução tem que comportar todos esses elementos.  

MN: O autor João do Rio é cronista do Rio de Janeiro. Por esse motivo, foi mais fácil traduzir uma obra sua do que a dos outros dois autores?

Ao contrario, foi muito mais difícil.  A premissa básica do cronista é que seus leitores conhecem a cidade sobre qual escreve, os seus bares, teatros, ruas, os seus políticos e a sua historia recente, tão bem quanto ele.  Para o brasileiro contemporâneo, muitas dessas referências precisam ser explicadas; para o leitor estrangeiro, então, que nunca ouviu falar da Avenida Central, muito menos de Oswaldo Cruz, Rodriguez Alves ou Pereira Passos, o trabalho de pesquisa e anotação se torna uma parte essencial do projeto.

Além disso, as crônicas apresentam uma série de outras dificuldades ao tradutor.  No seu esforço de enfrentar o preconceito da elite da época contra a arte popular, João do Rio cita inúmeros versos populares, inclusive comentários políticos escritos por presos e até marchinhas de carnaval, cujo sentido não está necessariamente claro, mesmo no original.  A construção desses versos geralmente depende em primeiro lugar da conveniência de duas palavras que rimam, depois do ritmo, e somente por último do sentido.  Para traduzi-los sem descaracterizá-los indevidamente esta sequência deveria ser mantida: rima, ritmo e, conforme o possível, sentido.

MN: Em qual obra você está trabalhando atualmente? Como está andando?

Estou traduzindo “Triste Fim de Policarpo Quaresma” de Lima Barreto.  É uma obra apaixonante.  O processo de pensamento de Lima Barreto e a sua forma de se expressar me surpreendem constantemente.  A revisão do texto, para que cada parágrafo se expresse com a mesma naturalidade do original, é muito trabalhosa. 

MN: Na sua opinião, quais os autores brasileiros que são intraduzíveis? Por quê?

Acho traduzíveis todos os autores que escrevam no português da sua época; sejam poetas, romancistas, dramaturgos ou cronistas.  As dificuldades podem ser imensas.  Recentemente traduzi alguns fragmentos do primeiro romance de João Paulo Cuenca, “Corpo Presente”.  Ele é um poeta que escreve em prosa; nas suas próprias palavras, ele “se perde em filigranas de forma, ritmo e sonoridade.” É um trabalho que exige reflexão, é trabalhoso, mas não é intraduzível.

O questionável é se obras que criam sua própria linguagem são traduzíveis.  Existe uma tradução em inglês de Grande Sertão: Veredas (“Devil to pay in the Backlands”).  Sem duvida, é um empreendimento que transmite alguns aspectos do original ao leitor; porem no caso de uma obra do calibre e complexidade de Grande Sertão, esses aspectos são necessariamente limitados.

MN: Poderia citar alguns trechos curiosos ou que teve mais dificuldade nas três obras supracitadas?

Logo no inicio do primeiro ensaio da “Alma Encantadora das Ruas” intitulado “A Rua” João do Rio cita a definição que consta nas antigas Ordenações: “Estradas e ruas pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas”. (“A obscuridade da gramática e da lei!  Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam,” ele comenta.)  Na tradução usei inglês igualmente arcaico, tentando manter o absurdo do original:  “Publicke streetes and higheways of antiquitie and ye navigable rivers, ye naturall richesse that floweth ever and at everie tyme, thereon serving as ye publicke streetes and higheways.”

Entre muitos versos, as poucas linhas de grandes poetas citadas por João do Rio incluem estas de Bilac (também no primeiro ensaio “A Rua”):

A Avenida assombrada e triste da saudade
Onde vem passear a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.

Na tradução tentei transmitir o espírito de compaixão de Bilac; o metro, porem, perdeu a soltura do original:

Along the haunted avenue of heartache and distress
See the sad procession on its weeping way progress,
Where daily walk the souls deprived of love and happiness

Entre os inúmeros versos populares no livro as marchinhas de carnaval são um exemplo das dificuldades enfrentadas pelo tradutor.  Esse exemplo (um de muitos) é da crônica intitulada “Cordões”:

Há duas coisa
Que me faz chorá
É nó nas tripa
E bataião navá! 

Na tradução, para não descaracterizar a rima e as linhas curtas do original, troquei o temido “batalhão naval” para uma referência ao odiado Capitão Bligh (o capitão que reprimiu o motim a bordo do HMS Bounty): 

There’s jus’ two thing
That makes me cry
Pain in the gut
And Captain Bligh!

O maior desafio do texto do João do Rio foi transmitir em inglês a grandiosidade de certos trechos, notadamente o magnífico ultimo parágrafo do ensaio “A Rua”:

“Há ainda uma rua, construída na imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossa vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todos acotovelam-se e vociferam aí… Qual de vós não quebrou, inesperadamente, o ângulo em arestas dessa rua?  Se chorastes, se sofrestes a calúnia, se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de que entrastes na obscura via!  Ah!  Não procureis evitá-la!  Jamais o conseguireis. Quanto mais se procura dela sair mais dentro dela se sofre. E não espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir. Não é uma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua interminável, que atravessa cidades, países, continentes, vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas as verdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou.  Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluços sinistramente ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero – interminável rua da Amargura.”

“But there is another street, built of imagination and distress; an abject, evil street, detested and detestable, which we enter against our will, where to tread is to be ignominiously dragged along through the scum of a city and its people.  There everyone jostles and vociferates…  Which of you has not unexpectedly turned the corner that conceals this street?  If you have wept, if you have been vilified, if you have been wounded by the talk behind your back, you can be sure that you have entered that tenebrous way!  Ah! Don’t try to avoid it.  You will never succeed.  The more you try to get free of it, the more it will make you suffer.  And never expect the world to improve as long as it exists.  It is not a street where only a few of us suffer; it is the never-ending street, that crosses cities, countries, continents, that runs from pole to pole; where all ideals are put to the sword, every truth insulted, where Epaminondas suffered and along which Jesus walked.  Perhaps when the world has ended, when all the stars have been put out and the cosmos plunged in darkness; perhaps it will still exist, its ominous sobs echoing in total ruin; street of tears, street of despair – never-ending Via Dolorosa.”