Veja a entrevista de Miguel Conde, editor do caderno Prosa e Verso do Globo, com o Machadista britânico John Gledson, que contribuiu um ensaio a edição da Casa Velha:

Um Machado de Assis redescoberto
O crítico inglês John Gledson questiona a tradicional divisão entre duas fases do autor e comenta a nova edição de ‘Casa velha’

Miguel Conde
Publicado em episódios por Machado de Assis em 1885 e 1886, o romance “Casa velha” só voltou a circular quase 60 anos mais tarde, em 1944, graças ao trabalho da crítica Lucia Miguel- Pereira, que recuperou o livro nos números antigos da revista “A Estação”. Uma nova “redescoberta” do romance foi realizada em 1983 pelo crítico inglês John Gledson, que contestou num ensaio o consenso crítico de que, embora publicado após “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1880), o livro seria uma obra menor, escrita anos antes, ainda na fase romântica de Machado. Uma nova edição do livro, em versão bilíngue (Editora Cidade Viva, tradução de Mark Carlyon), chega agora às livrarias com o ensaio de Gledson, que conversou com O GLOBO por e-mail sobre a obra.

O GLOBO: Em seu ensaio sobre “Casa velha”, o senhor questiona a tradicional divisão da obra de Machado de Assis em duas fases (uma romântica e ingênua, a outra realista e pessimista), divididas pela ruptura realizada em “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1880). Poderia explicar resumidamente os argumentos contra essa divisão, e como eles se aplicam à discussão sobre o ano em que “Casa velha” teria sido escrito?
JOHN GLEDSON: Não é que não reconheça o que todo mundo sabe, que em 1880, com “Memórias póstumas”, houve um salto enorme de qualidade e originalidade na obra de Machado. Mas é irreal achar que um não saiu do outro, o “maduro” do “imaturo”. O que houve em 1880 não foi um milagre, palavra que acaba significando “inexplicável”. Tem suas raízes no Machado dos anos 1870, que não foi muito romântico, nem tão ingênuo assim. A verdade é que esses adjetivos (romântico, ingênuo, realista, pessimista, maturo, imaturo) podem ser meias-verdades, mas s e n o s c o n t e n t a m o s c o m meias-verdades, corremos o risco de nos cegarmos para um processo dos mais fascinantes, que tem muitos outros elementos (a começar por um enraizamento na realidade social brasileira, como mostrou fartamente Roberto Schwarz, em “Ao vencedor as batatas”). “Casa velha” “volta” aos enredos de Helena e Iaiá Garcia, das agregadas que se apaixonam pelo filho herdeiro da família oligárquica; mas ninguém argumenta que “Dom Casmurro”, que também “volta” a esse enredo (as aspas correm por conta da su- posição errada de que voltar é voltar para trás), é dos anos 70 ou 80. “Casa velha” tem até um narrador na primeira pessoa (o padre que se envolve, meio sem querer, nos assuntos da casa) e que não é nada confiável, sinal provável do contínuo experimentalismo que caracteriza o Machado pós-1880. E a mensagem dura e autoritária do final infeliz do romancinho é nova.

● Se a leitura “divisionista” de Machado corre o risco de ignorar certos aspectos críticos de sua primeira produção, não se pode por outro lado imaginar que a leitura “unificadora” corre o risco de fazer uma interpretação planificadora dessa mesma produção, criando a imagem de um escritor monolítico e de certo modo “grande” do princípio ao fim?
Não acho que esse perigo exista. Ninguém questiona que houve mudanças, e sou dos que ficam impacientes com esse Machado supostamente “monótono” que inventaram. O que houve foi um progresso lento, deliberado, muito astuto e inteligente, com idas e vindas, recuos para melhor saltar, uma capacidade de usar diferentes gêneros para diferentes fins, muito complexo, mas sim, como diz o Silviano Santiago, com uma coerência muito grande, que cabe a nós detalhar.

● O senhor chega a falar de “Casa velha” como uma obra de ligação entre livros como “Iaiá Garcia” e “Helena” e “Dom Casmurro”, elaborando de modo mais conciso elementos presentes nos dois primeiros, e antecipando outros que ganhariam formulação mais acabada no último. Quais são esses elementos?
A ligação mais óbvia, que já mencionei, é o enredo que envolve a agregada e o herdeiro da família oligárquica, que põe o dedo num dos pontos nevrálgicos da sociedade brasileira do século XIX. Note- se que o fim infeliz, duramente real e nada melodramático de “Casa velha” (“Se ele e Lalau foram felizes, não sei; mas foram honestos, e basta.”) repete-se em tom até mais nauseante em Dom Casmurro (“A mãe creio que ainda não disse que estava morta e enterrada.”) Também há uma série de coincidências meio estranhas entre as personagens, nomes, e referências das duas obras (Nhãtônia, a mãe autoritária de “Casa velha”, é devota da Virgem da Glória, e “vira” Dona Glória em “Dom Casmurro” etc. etc.), que parecem ter sua origem numa estrutura mental e/ou mítica comum.

● Seu ensaio, publicado originalmente em 1983, tem por título “Casa velha — Uma interpretação”, e o senhor reafirma esse artigo indefinido no final do texto ao dizer que outras leituras do livro são possíveis.
No entanto, de modo aparentemente contraditório, seu texto com frequência reivindica um certo valor de verdade. Afinal, existe uma interpretação correta de Machado de Assis?
Sem dúvida minha interpretação é “uma” — deve haver outras possíveis, ou complementares. Claro que todo mundo tem, ou deve ter, um argumento, que procura dar conta no maior grau da obra como um todo, e vai expor esse argumento da maneira mais convincente possível — também, se for honesto e bom crítico, ficará ele mesmo alerta para evidências que contrariem esse argumento, para melhor refiná-lo ou até abandoná-lo, e começar de novo. Se o argumento for errado, cabe aos outros criticá-lo, e assim se vai estabelecendo a verdade, ou uma versão mais provável da verdade. Mas não vou ao ponto de dizer que não há argumentos errados — há, e muitos. Acho errado, por exemplo, dizer (como alguns ainda dizem) que não há a menor dúvida de que Capitu traiu — pelo menos nesse “detalhe”, dizem, podemos confiar em Bentinho. (Também acho errado, como afirmou por exemplo Helen Caldwell, que é seguro que não traiu.) Sem argumentos, como vamos avançar? Não sei se existe “a” interpretação correta de tal livro ou tal passagem; mas, mais corretas e menos corretas, há.

● Os trabalhos mais conhecidos de crítica machadiana ainda tratam das obras identificadas com o “segundo Machado”. Que trabalhos o senhor destacaria sobre os livros menos prestigiados do autor?
Creio que não há escritos de fôlego, excluindo o meu ensaio, sobre “Casa velha”, o que é uma pena, pois o livrinho teve muitas edições, e creio que foi, e é, bastante lido. Não sei até se existem estudos importantes sobre as obras anteriores a 1880, excluindo, é claro, o próprio “Ao vencedor as batatas”, um estudo de Silviano sobre três obras, “Ressurreição”, “Uma ode de Anacreonte”, e “A mulher de preto” — ambas estas obras são anteriores ao meu estudo, e há diversas obras que abrangem a produção inteira, como “Os leitores de Machado de Assis”, de Hélio Guimarães. O estimulante do artigo de Silviano é que trata não só dos romances, mas também de um poema e um conto. Mas essa “inexistência” pode ser ignorância minha.

Uma coleção bilíngue e ilustrada
● A recém-lançada edição de “Casa velha”, de Machado de Assis, é o terceiro volume da série River of January, dedicada a edições bilíngues e ilustradas de clássicos cariocas. Os dois primeiros livros da coleção, publicada pela Editora Cidade Viva com patrocínio do Instituto Light e da Secretaria de Estadon de Cultura, foram “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio, ilustrado por Waltercio Caldas, e “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, com arte de Luiz Áquila. O novo livro ficou a cargo de Daniel Senise. As versões para o inglês são assinadas por Mark Carlyon.